Em meio a um processo de renovação no banco Safra, Alberto, de 28 anos, está sendo preparado pelo pai, Joseph Safra, para assumir o comando do grupo.
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| Alberto Safra: à frente da principal área do banco |
Por Giuliana Napolitano
EXAME Nos últimos meses, o Safra, nono maior banco brasileiro, tem se notabilizado pelas transformações. Além de estar prestes a entrar numa nova área -- a de financiamento ao consumo --, o banco contratou quatro vice-presidentes e 150 novos funcionários. Em termos de alcance, no entanto, nenhuma renovação se compara à que envolve Alberto Safra, filho de Joseph, o dono do banco. Aos 28 anos, Alberto está sendo preparado para assumir o lugar do pai. Embora os Safra não falem abertamente sobre o assunto, mais de uma dezena de executivos do mercado financeiro, ex-funcionários do Safra e consultores especializados no setor bancário deram a EXAME mostras de que esse processo de sucessão está a pleno vapor.
O pontapé inicial aconteceu no início de 2006, quando um acordo definiu que Joseph, então dono de 50% do banco, compraria a metade do irmão Moise. Ao resolver a questão do controle, o acordo abriu caminho para que Joseph começasse a preparar seu sucessor. Hoje, Alberto já cuida da principal área do banco, a comercial, que atende pequenas, médias e grandes empresas. Por enquanto, ele compartilha o comando da área com o tio Hélio Sarfaty, irmão de sua mãe. Como é de costume na família, Alberto começou a trabalhar no banco ainda na adolescência. Sob a supervisão do pai, que é presidente do conselho de administração do Safra, conheceu o funcionamento de diferentes áreas da instituição. "Alberto chegou até a trabalhar em algumas agências do banco", diz um profissional que trabalha próximo a ele.
Todos são unânimes em destacar as qualidades de Alberto -- que reuniria uma sólida formação acadêmica e aptidão natural para trabalhar no setor financeiro. No fim da década de 90, ele iniciou uma temporada de estudos no exterior. Cursou economia com ênfase em finanças na tradicional escola de negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Foi durante a graduação, em um dos períodos de férias do curso, que ele fez um estágio de dois meses no Bradesco, em São Paulo. Seu objetivo era conhecer a área de varejo e atendimento a pessoas físicas. Depois de se formar em Wharton, em 2003, mudou-se para a França, onde fez pós-graduação em economia social na Universidade de Poitiers, a 60 quilômetros de Paris. "Além de toda a sua bagagem, o Alberto está recebendo o melhor treinamento prático que alguém pode querer, que é ser guiado por um banqueiro como Joseph Safra", diz um executivo da concorrência. Em 2004, já de volta ao Brasil, Alberto foi destacado pelo pai para dirigir o recém-inaugurado banco J. Safra. A instituição foi criada no auge da disputa entre Joseph e Moise pelo controle do banco. Quando a questão foi resolvida, a operação dos dois bancos foi integrada e Alberto migrou para o Safra. Seus dois irmãos também estão envolvidos com os negócios da família. Jacob, o mais velho, de 33 anos, cuida das operações na Europa. David, que tem 26 anos e também se formou em Wharton, é um dos diretores do banco de investimento do Safra, em São Paulo.
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Dois séculos de Safra |
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Alberto Safra é o mais novo expoente de uma das dinastias de banqueiros mais bem-sucedidas do mundo |
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O INÍCIO Em meados do século 19, os familiares de Jacob Safra fundam em Alepo, na Síria, o Safra Frères & Cie., instituição financeira focada em empréstimos e operações de câmbio e ouro. Em 1920, Jacob abre o Jacob Safra Maison de Banque, em Beirute, no Líbano. Na década de 50, muda-se para o Brasil e, junto com os filhos Edmond, Joseph e Moise, dá início ao negócio que resultaria na criação do banco Safra. Em 1962, Edmond vai para a Europa e começa a construção de um império financeiro que, anos mais tarde, chegaria aos Estados Unidos e ao Oriente Médio. |
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A TRANSIÇÃO Em 1999, Edmond, que não tinha filhos, morre vítima de um incêndio criminoso em sua casa em Monte Carlo. Sete anos mais tarde, Joseph fica com o controle do banco após entrar em acordo com seu irmão Moise.A decisão abre caminho para que seus filhos Alberto e David assumam cargos de direção no banco. |
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A NOVA FASE Em 2007, tem início um processo de rejuvenescimento da cúpula do banco, com a saída de executivos com mais de 20 anos de casa. Alberto, filho de Joseph, passa a cuidar da área comercial, o coração do banco, sob a supervisão de seu pai. Neste ano, o banco pretende abrir uma financeira para aproveitar o crescimento do crédito ao consumo e do financiamento de veículos. |
A preparação de Alberto coincidiu com o início de um processo de renovação do quadro de executivos do Safra. Em 2007, dois vice-presidentes com mais de 20 anos de casa deixaram o banco -- João Carlos Chede e Tiago Canguçu. Outro vice, Alberto Corsetti, negocia sua saída para os próximos meses e já tem um substituto, Renato Pasqualin, que era diretor executivo do Real e começou a dar expediente no Safra no último dia 14 de março. Além de Pasqualin, foram contratados no mercado outros três vice-presidentes: Marcelo Santos e Alex Zornig, ambos ex-executivos do BankBoston, e Rossano Maranhão, ex-presidente do Banco do Brasil. As mudanças, porém, não ficaram restritas à cúpula do banco. Somente neste ano, o Safra já contratou 150 pessoas e pretende admitir mais. Até o final de 2008, a meta é contratar de 500 a 800 novos funcionários.
Parte dos recém-chegados vem sendo incorporada por uma área que está sendo criada pelo Safra, a de financiamento ao consumo. Sob o comando de Rossano Maranhão, o banco começará a oferecer, pela primeira vez, crédito pessoal e linhas de financiamento de veículos a pessoas físicas. Outra parcela dos novatos está sendo admitida pelas demais unidades de negócio do banco. "Essas contratações e mudanças na cúpula dão subsídios para o Safra se fortalecer", diz Gilberto Braga, professor de finanças da escola de negócios Ibmec Rio de Janeiro. De 2005 a 2007, o crescimento do Safra foi inferior à média das 30 maiores instituições financeiras do país, de acordo com dados do Banco Central. Enquanto o total de ativos do banco aumentou 63% no período, nas demais instituições eles cresceram 84%.
EMBORA SEJAM IMPORTANTES, já que ocorreram num momento em que a maioria dos bancos de médio porte abriu o capital e se capitalizou, os recentes resultados do Safra são vistos como algo pontual e reversível. Entre concorrentes e consultores especializados, o banco continua sendo considerado uma referência de solidez e expertise nos segmentos em que atua. O principal deles é o de concessão de crédito e estruturação de operações financeiras a empresas, com destaque para as companhias de médio porte, aquelas que faturam entre 30 milhões e 250 milhões de reais por ano -- nicho conhecido como middle market. "O Safra é uma unanimidade na área de crédito, pela agilidade e também pela forma como estrutura e precifica as operações", diz Beny Parnes, diretor do banco BBM e ex-diretor do Banco Central. Uma evidência da força do banco é o tamanho de sua carteira de empréstimos para empresas, que somou 23 bilhões de reais em 2007 e o colocou entre as maiores instituições privadas do país nesse segmento. A expectativa é que, com as novas contratações, o banco amplie ainda mais essa área. "Apesar de não ter aberto seu capital, o Safra possui grande capacidade de levantar recursos, em razão de um status diferenciado de que desfruta no mercado internacional", diz Plínio Chap Chap, professor de finanças da escola de MBA Brazilian Business School, de São Paulo.
| Destaque no crédito |
A carteira de empréstimos para empresas do Safra é uma das maiores entre os bancos privados que operam no Brasil(1) (em bilhões de reais) |
Bradesco
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78 |
| Itaú |
58 |
| Santander |
57(2) |
| Safra |
23 |
| Unibanco |
23 |
| HSBC |
15 |
| Votorantim |
10 |
| BicBanco |
7 |
| ABC Brasil |
4 |
| Fibra |
3 |
(1) Em dezembro de 2007. O Citi não aparece na lista porque o banco não detalha sua carteira de crédito (2) Com a carteira do Real Fontes: bancos e Inepad |
A família Safra está no mercado financeiro desde o século 19, quando foi fundada a financeira Safra Frères, em Alepo, na Síria, instituição que financiava comerciantes e empresários da região. Em 1920, Jacob Safra, avô de Alberto, fun dou o primeiro banco do clã em Beirute, no Líbano. Após a Segunda Guerra Mundial, com a perseguição aos judeus no Oriente Médio, Jacob se mudou para o Brasil com a família e, junto com os filhos Edmond, Joseph e Moise, todos naturalizados brasileiros, fundou o banco Safra. Edmond, porém, ficou pouco tempo no país. Ele vendeu sua fatia no banco aos irmãos e ergueu o império financeiro da família no exterior. Em Genebra, na Suíça, fundou o banco Trade Development Bank, que anos mais tarde foi vendido à American Express. Viveu também em Nova York, onde criou o Republic National Bank of New York, que chegou a ser o 20o maior banco americano e foi vendido ao HSBC. O acordo ocorreu em maio de 1999, meses antes de o banqueiro morrer de forma trágica em seu apartamento em Monte Carlo, vítima de um incêndio criminoso. Com a morte de Edmond, os negócios internacionais do grupo Safra passaram a ser geridos por Joseph e seu filho mais velho, Jacob.
No Brasil, a ascensão de Alberto, embora hoje dada como certa, pode levar algum tempo. Com menos de 30 anos, ele é considerado jovem demais para comandar uma instituição do porte do Safra, ainda que sob a tutela do pai. Apesar de o banco ter um presidente, Carlos Alberto Vieira, é sabido que todas as decisões relevantes passam pela mesa de Joseph. "Os Safra sempre comandaram seus negócios, desde a primeira geração de banqueiros", diz um concorrente. Mesmo que no curto prazo um executivo possa ser destacado para ocupar o cargo de Vieira, não restam dúvidas de que, no banco Safra, o poder já começou a ser transferido para a quarta geração.
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