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Por Eraldo Genin Fiore
 








Eraldo Genin Fiore é Coordenador Acadêmico da Brazilian Business School, Professor da Universidade Mackenzie e da PUC/SP. Mestre em Economia e Doutorando pela USP.


A educação e os incentivos econômicos

O discurso político já incorporou a importância da educação no processo de crescimento econômico. O investimento em educação no Brasil, 4,1% do PIB segundo dados do Relatório do Desenvolvimento Humano 2006, não está muito distante do investimento feito pelos países desenvolvidos, 4,5% em média nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo a Unesco.

Dados desse mesmo estudo mostram melhoras nos indicadores de alfabetização e nas taxas de escolarização primária e secundária. Apesar da melhora, muitos desses números ainda são relativamente baixos mesmo em comparação com países da América Latina.

Não há dúvidas que problemas ainda existam e soluções têm sido debatidas em todo o país. Tenho percebido que esse debate concentra-se em torno de dois aspectos, não necessariamente excludentes. O primeiro seria aumentar os gastos públicos com educação. O segundo é melhorar a qualidade desses gastos. Gostaria de propor um terceiro ponto de vista com o intuito de apimentar a discussão e, sobretudo de explicitar a relação de mão dupla existente entre o necessário aumento nas taxas de crescimento econômico e a melhora nos índices educacionais.

Sem que a ordem apresentada reflita qualquer critério classificatório ou de importância, elencarei quatro tópicos que considero essenciais para o desenvolvimento do argumento:

1ª.) O Brasil tem um dos piores ambientes para negócios do mundo. Em estudo sobre facilidade para fazer negócios, realizado pelo Banco Mundial e pela International Finance Corporation, o Brasil foi classificado na nada honrosa 119ª. posição entre 155 países analisados.

2ª.) Dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) mostram o Brasil nas últimas posições do ranking de desempenho nas provas de matemática e leitura.

3ª.) A escolaridade média do brasileiro está aumentando, no entanto os salários e a produtividade média dos trabalhadores não está. Um estudo da Mckinsey mostra que o trabalhador brasileiro tinha, em 2004, apenas 21% da produtividade do trabalhador norte-americano. O quadro piora quando comparamos esse número aos 23% do dado de 1995, mostrando que existe uma tendência de deterioração dessa relação. Mesmo controlando pela escolaridade média, a produtividade do trabalhador no Brasil é mais baixa que em grande parte do mundo.

4ª.) Neste quarto tópico apenas expresso uma preocupação que tenho sentido emergir em vários artigos de opinião e reportagens recentes: o distanciamento do conteúdo ministrado nos cursos de graduação e pós-graduação e a demanda de qualificações por parte das empresas.

Não creio que analisar os quatro itens isoladamente acrescente algo novo ao debate. Proponho que esses são sintomas diferentes de uma mesma doença: incentivos errados. As pessoas respondem a incentivos! Lição central de um livro que deveria ser leitura obrigatória de qualquer formulador de política pública – The Elusive Quest for Growh (W. Easterly) – traduzido para o português com o título, muito sugestivo, de "O Espetáculo do Crescimento".

Esta idéia aparentemente simples é na verdade resultado de anos de pesquisa em teoria do crescimento econômico. As economias ficam ricas quando acumulam capital, investem em infra-estrutura e produção, qualificam seus trabalhadores e quando aprendem a utilizar e/ou desenvolvem novas tecnologias.

Para que isso tudo ocorra pessoas e empresas precisam de um ambiente de negócios que crie os incentivos corretos. No jargão da economia, o país precisa que sua matriz institucional favoreça a poupança e o investimento produtivo, crie condições para o investimento em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e incentive as pessoas a buscarem novos conhecimentos.

Incentivamos as pessoas a correrem atrás do título universitário. As empresas exigem o diploma. No entanto, em conversas com alunos de graduação e pós-graduação faço todas as noites uma triste constatação: a busca pelo título universitário não é necessariamente uma busca por conhecimento.

Ai começa o imbróglio. A emaranhada burocracia, fraudes, corrupção, a competição desleal com empresas quase fantasmas que não pagam impostos, subornam e não registram funcionários, a carga tributária excessiva, enfim, uma lista enorme faz com que o conhecimento não seja essencial para a sobrevivência no mundo brasileiro dos negócios.

O diploma tornando-se fundamental para a conquista do emprego em um ambiente de baixo crescimento econômico e pequena criação de postos de trabalho e a baixa relevância do aumento de produtividade nesse ambiente empresarial são lados da mesma moeda. Explicam uma massa de trabalhadores que apesar de acumularem anos de escolaridade em seus currículos são incapazes de enxergar a relevância do que supostamente aprenderam para tornarem-se mais produtivos no dia-a-dia.

Como apontei na constatação número quatro, uma resposta a essa indagação tem sido dada pelo distanciamento do conteúdo lecionado nas instituições de ensino das necessidades do mercado. Não consigo enxergar a resposta por meio dessa explicação. A ausência de ganhos de produtividade está associada com a incapacidade do trabalhador de formular pensamento abstrato e de comunicação. Fato que o fraco desempenho nas provas do PISA explicitam. Esse conhecimento não é obtido simplesmente aproximando universidades da realidade empresarial.

As instituições de ensino muito pouco agregariam dedicando-se a capacitar o estudante a lidar com as ferramentas necessárias em seu dia seguinte na empresa. Estas ferramentas tornam-se obsoletas cada vez mais depressa. Não é esse conhecimento que irá preparar as pessoas para os desafios de um mundo em rápida transformação tecnológica.

Os estudantes precisam de um conteúdo teórico e prático que os capacite a pensar, resolver problemas e comunicar. Aumentar os gastos em educação e melhorar a qualidade desses gastos, por exemplo, aumentando o investimento na capacitação de professores e colocando mais recursos para o ensino fundamental e médio são medidas essenciais para a melhora da qualidade do sistema educacional. Não tenho dúvidas e sei que esse é um desafio enorme e difícil de resolver.

Existe, no entanto, um desafio ainda maior que independe dos esforços isolados na área educacional. Os anos dentro da escola só irão resultar em maior produtividade quando os estudantes tiverem incentivos para adquirir esse conhecimento. O país ter um dos piores ambientes de negócios do mundo não causa estragos apenas na paciência dos pretendentes a empreendedor ou empresários. Além dos impactos diretos na economia, quando o país é incapaz de criar um ambiente institucional que fomente os negócios, as pessoas tenderão a perceber menos vantagens em adquirir conhecimento, ou seja, o incentivo ao estudo será menor, causando estragos no rendimento da educação.

Melhorar os indicadores educacionais é essencial para que o Brasil possa almejar metas de crescimento econômico próximas, ou até superiores, aos 5% tão falados ultimamente. No entanto, não acredito que esse seja um problema a ser resolvido de forma isolada e sem uma política explicita para a melhora da matriz institucional do país. Um ambiente institucional mais favorável aos negócios é fundamental para incentivar as pessoas a buscarem conhecimento nas escolas e não apenas um diploma que perde valor todos os dias.

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